Segunda-feira, Fevereiro 23, 2009

CAOS - Uma interessante trama policial

Poucos são os filmes policiais que saem diretamente para o DVD que possuem uma trama realmente engenhosa. Claro que há vários enredos que nos chamam atenção à primeira vista, mas que aos poucos, durante o desenvolvimento da história, começam a tornar-se enfadonhos, repetitivos e tendem a se "perder" nas próprias reviravoltas e surpresas jogadas pelo roteiro. Ainda mais quando o filme policial possui vários elementos para ser uma ação escapista do que um suspense investigativo, como é aparentemente o caso de Caos ("Chaos", de 2005) que nos exibe logo de cara, dois atores ícones do cinema de ação contemporâneo, que é Wesley Snipes e Jason Stathan. Mas não se enganem, pois apesar de terem esses dois marcantes atores do gênero, o filme consegue mesclar muito bem a ação adrenalínica com uma história que prioriza todos os pontos narrativos de maneira inteligente.

Apresentando logo de início, uma introdução que parece "apenas" mostrar o resultado de uma ação que definiu o destino do personagem principal (Stathan, muito bem no papel), o filme ganha pontos rapidamente quando já "revela" que esse tal acontecimento ainda poderá explicar muitas coisas no futuro dos personagens. Concebendo a partir daí, uma trama bem amarrada com cenas pseudo-explicativas e que ainda terão mais significados à frente, Caos consegue a proeza de nos enganar com pequenos detalhes inseridos numa ação ou num diálogo, que facilmente nos pode passar despercebidos. Os poucos personagens apresentados a nós, não são jogados ao acaso e a história se firma cada vez mais, quando percebemos que a investigação inicial, é na verdade uma intriga maior e mais nebulosa que envolve o passado do mocinho e do bandido ao mesmo tempo (não se preocupem, não estou revelando nada). No meio disso tudo, um jovem policial precisará resolver toda a problemática dessa emaranhada investigação, e é aí que o filme mostra sua força!

Interpretando dessa vez o vilão, Wesley Snipes não muda muito o seu estilo interpretativo; exibindo aquele olhar sempre enérgico de ator de ação, com o seu ar "debochado" (dessa vez, mais acentuado) e aquela ginga de lutador, o ator oferece uma boa performance - mesmo que rápida. É eficiente em pelo menos nos mostrar que ele não é meramente um assaltante de Bancos, mas pode ser talvez, um homem que quer colocar um plano maior em evidência. E outro ator de ação que se sai ainda melhor que Snipes (até porque é realmente o nome principal do filme!) é o carequinha Jason Stathan, mostrando nessa produção que não é só um artista marcial, mas é também um cara que sabe realmente atuar! É dele as frases mais curiosas e as tiradas mais engraçadas. Fazendo um policial durão, mau humorado e sacana (algo que Bruce Willis também adoraria fazer, e que já domina há um bom tempo!), Stathan também aproveita pra exibir um lado mais humano, engraçado e divertido com seu personagem, chegando a dar um sorriso sincero onde pouquíssimas vezes o vimos fazer em cena - que o diga seus exagerados heróis sizudos em Carga Explosiva e Adrenalina. No elenco também está o veterano Henry Czerny, mas ele tem apenas pequenas aparições e só serve mais para enfeitar o desenvolvimento do personagem de Stathan.

E no meio a esses astros de certo renome, está o jovem Ryan Phillipe (de Segundas Intenções, seu filme mais marcante), mostrando sua semi-inexpressividade como ator e provando o porquê não é chamado para muitas produções até hoje. O irônico é que para um filme tão acima da média, comandado de forma tão segura e criativa pelo diretor e roteirista Tony Giglio e que consegue extrair boas interpretações de Snipes e Stathan, o insosso Ryan Phillipe seja quase que o personagem condutor de toda a história. Esse foi apenas o meu único incômodo durante toda a projeção: reconhecer que o papel de Phillipe, era mesmo aquele que interligaria toda a narrativa e se mostraria o segundo personagem principal, depois do competente Jason Stathan.

Ainda bem que, mesmo não gostando da atuação de Ryan Phillipe, devo admitir que o filme se sobressai pela inventiva e bem entrelaçada trama policial, fazendo com que Phillipe não comprometa gravemente a produção... embora, Jake Gyllenhaal, Casey Affleck ou qualquer outro jovem ator vigorosamente esforçado, teria feito um trabalho visivelmente melhor!


Mas Caos é mesmo bom e merece ser visto sem qualquer receio.

NOTA 7,5

PS: Jason Stathan tem tudo para começar a escolher significativos trabalhos no cinema e deixar um pouco de lado, essa "fama" de herói de ação desenfreada, pois o ator mostrou ter certo talento e muito carisma!

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Quarta-feira, Fevereiro 18, 2009

CORALINE E O MUNDO SECRETO - Uma fábula animada nada infantil

Atualmente os desenhos animados avançaram por um campo muito rico que é o da tecnologia da animação. Praticamente, vemos produções da Pixar, da Dreamworks e da Disney arrebatarem prêmios por suas mirabolantes e perfeitas técnicas visuais. A narrativa também é outra área muito bem explorada hoje em dia, com roteiros minuciosamente bem trabalhados, e diálogos e situações que nos remete à filmes cinematográficos. Apenas um único elemento essas grandes empresas de animação possuem em comum: o seu público alvo. Embora, alguns desenhos trate de temas mais avançados e elaborados que jovens e adultos se apegam, o tom e o clima de humor infantil continua lá... irretocável com a presença de seres engraçadinhos, bichinhos tresloucados e personagens cômicos. Todos, em sua maioria, voltados exclusivamente para as crianças! Mas é difícil - e até RARO - uma produção animada numa técnica bem mais pueril que é a do stop motion com massinhas, conseguir ser completamente envolvente de maneira séria e adulta. E Coraline e O Mundo Secreto ("Coraline", 2009) é exatamente assim!

De Henry Sellick, o mesmo diretor do inovador O Estranho Mundo de Jack e do carismático James e o Pêssego Gigante, e à partir dos contos de Neil Gaiman, autor de famosas Histórias em Quadrinhos e Livros, Coraline e O Mundo Secreto possui as mesmas características visuais de seus antecessores (personagens esticados, visual alegórico e tom sombrio) numa história totalmente reflexiva e, até em alguns pontos, assustadora! Utilizando a charmosa técnica da animação quadro a quadro com massas de modelar e cenários feitos em maquetes, Coraline já quebra qualquer convenção dos desenhos animados em agradar criancinhas logo em suas cenas iniciais, quando exibe em sua abertura, uma mão medonha de ferro costurando os olhos e as bocas de bonequinhos de pano, de uma maneira bem agressiva e impactante. Quero dizer, para alguns... já que muitos jovens e adultos devem achar a sequência inicial até comum. O curioso é começarmos a compreender - aos poucos! - a história sombria, melancólica e falsamente feliz de Coraline. Assim que se muda com seus pais para um local aparentemente calmo, mas que sempre chove muito, a menina (que aparenta uns 9 ou 10 anos, mas que o roteiro nunca revela) conhece logo o inquieto Wybie, um garoto meio nerd que adora andar de bicicleta com suas estranhas máscaras artesanais. Aparentando também ter a mesma idade da pequena e espivitada Coraline Jones, o garoto a entrega uma bonequinha de pano com olhos de botões que chama a atenção da menina, mas que será apenas um pequeno elemento de uma trama muito mais elaborada e espantosa. E o "espantosa" aqui, não é só um termo de surpresa, mas sim de espanto mesmo, de terror, já que quando conhecemos a real história dos "outros pais" de Coraline e da realidade do tal "Mundo Secreto" do título, começamos a perceber que a vida da protagonista e de seus verdadeiros pais, podem estar correndo perigo, assim como a vida do vizinho acrobata e das vizinhas ex-vedetes.

Muito bem escrito, com passagens até filosóficas narrativa e visualmente, Henry Sellick demonstra um total domínio em sua direção, conseguindo nos fazer refletir em um simples sorriso forçado de determinado personagem, como num bem construído diálogo entre Coraline e sua "outra mãe". Reparem, por exemplo, no visual aterrorizante quando esta se revela para a menina num momento crucial do enredo, ou então no inusitado cortador de grama do "outro pai" que, se num momento da história se apresenta como uma ferramenta divertida e engraçada, em outro, se mostra como uma assustadora e mortífera máquina destruidora. Aliás, são nessas pequenas sutilezas e nos ricos detalhes escondidos em cada canto de Coraline, que Henry Sellick consegue montar com muito brilhantismo uma produção de encher os olhos... e a mente! E acredito com toda a certeza que muitas crianças podem não entender o ritmo da história e muito menos se adaptar ao estranho e sombrio mundo apresentado pelo diretor, mas arrisco em dizer que jovens mais maduros e adultos já habituados às produções mais fechadas de animação, vão adorar! Com uma leve inspiração em Alice no País das Maravilhas, Coraline, magistralmente, joga todo aquele conceito de um mundo fantástico descoberto pelos olhos de uma criança num caldeirão maquiavélico e subliminarmente reflexivo.

E é de se admirar que a técnica do stop motion de massinhas, que é uma habilidade já consagrada pelo clássico Wallace e Gromit, e que sempre serviu para nos contar histórias animadas com diversão e leveza, seja aqui utilizada para nos revelar uma rica trama de falsidade, domínio emocional e superação pessoal.

PS: Infantil mesmo, só o rostinho dos bonecos.

NOTA 8.5

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Segunda-feira, Janeiro 26, 2009

O MENINO DO PIJAMA LISTRADO – Uma pancada na alma!

Antes de iniciar essa crítica, gostaria de dizer que sou fascinado por dramas de guerra. Não dramalhões, mas aqueles que são feitos com sensibilidade à ponto de nos fazer questionar profundamente sobre o conceito da Guerra, à respeito da imbecilidade dos conflitos entre povos e sobre a importância da humanidade e do afeto onde ela nem existe mais. O Menino do Pijama Listrado ("The Boy in the Striped Pyjamas", 2008) não só consolida todos esses elementos de maneira direta e magistral, como se torna ao meu ver, uma das obras mais importantes a se discutir dentro desse gênero.

Elsa, a esposa de um soldado Nazista, aceita se mudar com ele para as proximidades de um campo de concentração depois que seu marido é promovido a Comandante. Digna e dedicada, Elsa leva com ela seus dois filhos: a menina Greitel e o curioso Bruno, seu caçula. Elsa é humana, sábia e carinhosa, mas não imagina o que realmente seja um campo de concentração! Ao seu entender, tais campos são apenas presídios ou centros de contenção que tem como objetivo alocar prisioneiros judeus que estejam direto ou indiretamente envolvidos com as guerras. Com ela, seu filho Bruno partilha da mesma inocência, só que o garoto de apenas 8 anos, enxerga os campos como fazendas e acredita que todas aquelas pessoas do outro lado da cerca, sejam fazendeiros.

Recém afastado de seus amigos da cidade, Bruno carece de novos companheiros de mesma idade, e ao avistar um menino com a cabeça raspada trajando um uniforme listrado semelhante a um pijama, e sentado sempre próximo da cerca de arames farpados, que Bruno vê a chance perfeita para se reconstruir um novo amigo. Só que existe um grande e terrível problema nessa inusitada relação... o novo menino chamado Schmuel (ou Samuel, que é como Bruno o chama depois que o conhece) é um pequeno Judeu, e como todos naquela época, era tratado como um verme asqueroso, cercado por soldados alemães prontos para lhe machucar, caminhando sem mais esperança - ou força! - de viver com alegria. E, mesmo assim, é através do menino alemão Bruno, seu mais novo amigo, que o judeuzinho Samuel volta a sorrir. E está aí toda a carga de emoção, beleza e inteligência que o filme poderia nos transmitir: na sincera e natural amizade dos dois meninos!!!

É emocionante ver que quando Bruno (Asa Butterfield) conhece Samuel (Jack Scanlon) atrás do cercado, a primeira pergunta eufórica que este lhe faz é se tem muita comida de onde ele vem? Ora, não precisa ter mais diálogos para se complementar o terror que aquele cenário de guerra fez no menino judeu... sua transparente e sofrida pergunta já exprime todo o resumo da covardia e humilhação pelo qual ele está passando. O roteiro é fabuloso! Não há como se elogiar um filme quando não nos sentimos tocados e deslumbrados com a maneira de como os personagens são desenvolvidos, como a história é transmitida e como toda a linha narrativa do filme é colocada de maneira gradativamente espetacular. O diretor Mark Herman adaptou de forma perfeita o já extraordinário best seller de John Boyne realizando uma direção precisa, segura e totalmente envolvente. O elenco também ajuda, principalmente, Vera Farmiga (a Elsa, mãe de Bruno) que consegue mudar toda a sua forma interpretativa em reagir contra os métodos de seu frio marido. Aliás, acredito que foi ela a grande vítima de toda a estupidez que seu imbecil esposo colaborou.

Mas no entanto, é a amizade de Bruno e Samuel que mais mexe com a gente! Não há uma cena se quer, onde os dois meninos aparecem juntos que não nos sentimos compartilhados de tudo aquilo. Não são excelentes atores mirins ou crianças-prodígios como Haley Joel Osment ou Dakota Fanning, mas conseguem com naturalidade e com um envolvimento sutil, despertar em nós o carinho e a verdade que aquela relação tão cheia de obstáculos poderia nos passar. E conseguem pra valer, com muito louvor! Bruno e Samuel, diferente dos meninos de O Caçador de Pipas, jamais se afastam ou se renegam por algum motivo... ao contrário, quando tudo parecia distanciá-los de vez, é quando eles se unem no momento mais bonito e ingênuo de todo o filme... é quando, finalmente, O Menino do Pijama Listrado chega em seu desfecho e se torna uma poesia!

Essa pérola cinematográfica é a prova absoluta de que jamais foi necessário usar efeitos ou se utilizar das eloquências técnicas que o Cinema pode proporcionar para se criar um verdadeiro drama de guerra. E para um filme desse gênero, é espantoso que não haja sequer um único tiro ou sangue derramado durante toda a projeção... e foi isso que me deixou ainda mais fascinado, pois O Menino do Pijama Listrado nos dá uma aula de intolerância humana não em cenas violentas, mas apenas mostrando a dificuldade de se manter uma afetuosa e carinhosa relação entre dois pequenos amigos... só por terem etnias diferentes.

NOTA 10

PS: O velhinho que faz o judeu Pavel nos comove inteiramente, e ver ele em cena assim como observar aquela fumaça negra sendo expelida pelas chaminés dos campos de concentração, nos faz perguntar do por quê de toda aquela estúpida selvageria? Um filme que merece ser visto e revisto, mesmo que seja uma verdadeira e precisa pancada na alma.

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Sábado, Janeiro 17, 2009

ABISMO DO MEDO - Criaturas legais e protagonistas chatas!

Com uma sinopse simples e um desenvolvimento rápido, Abismo do Medo consegue nos assustar em cenas claustrofóbicas e tensas, apresentando uma ameaça bem interessante, apesar de não conseguir fugir do clichê e de algumas cenas completamente exageradas. (O trabalho visual do pôster do filme, no entanto, merece meus sinceros elogios!!!)

Tudo começa quando seis moças decidem explorar uma caverna (para se desestrassarem, por radicalismo, sentir novos desafios ou apenas movidas pela TPM!) e logo, percebem que haviam entrado na caverna errada porquê uma delas não trouxe o livro de expedição (é sério, não riem!). Quando já imergidas na escuridão total das grutas e nos incômodos e nervosos túneis da misteriosa caverna, as seis jovens começam a avistar estranhas criaturas antigas que habitavam o interior daquele declínio. À partir daí, e cada vez mais, uma sucessão de erros cometidos pelas seis mocinhas vão acontecendo (de forma idiota, convenhamos!) e as criaturas parecem perceber isso (os erros e a idiotice delas) e partem pra cima, aterrorizando, vitimando e assustando cada vez mais.

O filme é interessante. Não nego a falta de bom senso do roteirista que transformou algumas personagens em puro clichê cinematográfico: existe a chata, a mais chata ainda, a irritante que só sabe gritar, a medrosa pessimista, a cretina e a versão Rambo de saias (substitua apenas as metralhadoras de Stallone por uma machadinha de alpinismo); mas com tudo isso, Abismo do Medo funciona como terror, por incrível que pareça. O diretor Neil Marshall que também foi quem escreveu o filme, funciona mil vezes melhor comandando as cenas do que escrevendo o roteiro, sem sombra de dúviida, e consegue criar bons momentos de tensão, sequências angustiantes misturadas à claustrofobia e ao nervosismo das personagens e coloca o clima de suspense sempre crescente. As atrizes, pelo menos, ajudam a compor essa histeria e duas delas se destacam: a que vive a personagem Juno (a Rambo de saias na qual falei) e Sarah (a "mocinha principal", que de medrosa vai recuperando uma coragem até então inexistente... e, por vezes, absurda!). Holly e Beth, são certamente, as mais insuportáveis! Enquanto a primeira tentava sempre liderar o grupo e só fazia merda atrás de merda - a ponto até de quebrar a perna e dá trabalho em dobro pras amigas -, Beth se esforçava em ser a legalzinha, mas escondia um mau caratismo impiedoso, conseguindo ter um final tragicamente imbecil. E pasmem: mesmo morrendo, ainda delata o erro de uma outra personagem propositalmente... "muy amiga", não? (acho que merecia morrer mesmo, rs).

Por outro lado, as criaturas foram bem construídas e elaboradas! Seres meio humanóides, mas com sentidos de morcegos (como o sensor ao som e a cegueira), elas conseguem mesmo impressionar... seja no lado interpretativo (há todo um trabalho de expressão corporal muito bem coordenado) e no lado estético (a aparência dos monstrengos realmente assustam). E, ao contrário das moçoilas heroínas que se perdem a cada movimento e atitude, as das criaturas são totalmente bem osquestradas.

Bem dirigido, mediocremente escrito e com um elenco irregular, Abismo do Medo consegue ser o tipo de terror que provoca bons sustos por parte dos seres bizarros e irrita com tantas mocinhas exageradas e chatas!

Nota 6

PS: Ao menos, o filme ensina uma IMPORTANTE lição: nunca, nunca mesmo se aproxime silenciosamente por trás de alguém... ainda mais quando esse alguém estiver com uma picareta na mão depois de matar monstrinhos feiosos.

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Domingo, Janeiro 11, 2009

NA MIRA DO CHEFE - Uma ótima surpresa

Às vezes sou acometido por grandes e inusitadas surpresas cinematográficas! Filmes em que eu acredito serem bons me decepcionam completamente e, alguns outros, em que eu assisto sem a menor expectativa, me agradam em cheio... e é o caso de Na Mira do Chefe ("In Bruges", 2007), filme quase independente, dirigido por um estreante cineasta saído dos teatros e estrelado por três craques do cinema como o versátil Colin Farrell (Por Um Fio), o talentoso Brandan Gleeson (Coração Valente) e o brilhante Ralph Fiennes (O Paciente Inglês).

O filme, todo filmado na Bélgica (na medieval cidade de Bruges), conta a rápida - e original! - história de dois matadores de aluguel que depois de realizarem um serviço, são mandados para aquela isolada cidade a fim de realizar mais um outro pequeno serviço a mando do chefe. O problema todo começa justamente aí: o que seria uma tarefa simples, acaba saindo do controle e transtornando a todos, principalmente um dos matadores e seu meticuloso chefe.


O filme - uma comédia dramática - possui ótimos e perfeitos diálogos, e situações muito bem elaboradas envolvendo principalmente os três protagonistas centrais (os dois matadores Ray e Ken e seu chefe Harry). O roteiro sabe explorar de forma muito inteligente cada um de seus bem construídos personagens. Até os coadjuvantes são muito bem destacados, como a moça que se envolve com um dos matadores, seu ex-namorado, uma hoteleira, um vendedor de armas e até um ator anão. A história, totalmente envolvente, consegue ainda nos manter "presos" de maneira sutil com todos os acontecimentos que vão surgindo em cena, sejam eles dramáticos ou puramente hilários... e essa mistura, do drama com a comédia, acrescentado com diálogos super inspirados, me lembrou em muitos momentos, algum filme de Quentin Tarantino; como por exemplo, a conversa que Ray tem com sua namorada sobre os anões e quando Harry fala com certo personagem que acabara de perder um olho.

Se já não bastasse possuir uma ótima história magistralmente desenvolvida, Na Mira do Chefe ainda consegue extrair o melhor de cada ator. Colin Farrell, um matador em conflito que leva um peso na consciência, faz o personagem Raymond de forma extraordinária, colocando em excelente equilíbrio todo o fundo trágico e dramático de seu papel com uma gaiatice e comicidade de impressionar (reparem em seus trejeitos físicos e a maneira como entorta a cabeça para o lado e levanta os ombros num gesto meio pueril de quem não sabe dar uma resposta exata). Outro que merece muitos elogios é Brendan Gleeson, que faz o contido e racional Ken, um matador mais experiente, humano, que sempre procura analisar as coisas e realizar suas ações com muita calma e cautela, transformando-o no fim, no personagem mais íntegro de todos. E, finalmente, Ralph Fiennes, como Harry, o chefe da dupla de matadores... um indivíduo demasiadamente meticuloso, sistemático e cumpridor de regras bastante rigorosas. Seriam essas até qualidades, se o sujeito não fosse altamente perigoso!

Com todos esses deslumbrantes acertos, o diretor Martin McDonagh, que também escreveu e roteirizou o filme, e que me surpreende ainda mais por sair de peças teatrais e comandar esse seu primeiro trabalho para o cinema com muita habilidade e segurança, fez de Na Mira do Chefe, o típico "pequeno grande filme" que nos envolve, nos emociona e nos faz rir de maneira espontânea e com muita inteligência.

Nota 9

PS: A única seqüência sonorizada por uma música, é também pra mim, a mais emocionante de todo o filme!

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Sexta-feira, Janeiro 09, 2009

APENAS UMA VEZ - Amor e Música numa linda obra

Definitivamente Apenas Uma Vez não é um musical. Embora, trate sobre música do início ao fim, ele é apenas um filme romântico - e o "apenas" é eufemismo para dizer que se trata de um dos mais belos e sensíveis romances independentes feito nas últimas décadas.

A simplista e bem conduzida história gira em torno de um casal de músicos: ele, um cantor que trabalha consertando aspirador de pó e que toca violão nas ruas de Londres para ganhar mais trocados e divulgar suas composições. Ela, uma delicada pianista que vende revistas e flores e que de vez em quando, também canta. Depois de uma abordagem rápida na calçada, onde ele acabara de executar uma de suas - ótimas! - canções, ela pede para que ele conserte seu aspirador quebrado e logo, os dois começam a sair juntos, a se conhecerem e aprenderem simultaneamete a admirar e a gostar um do outro, mesmo que tais sentimentos fiquem implícitos nos gestos e em algumas palavras; um detalhe que me lembrou muito do também romãntico Antes do Pôr do Sol, com Ethan Hawke e Julie Delpy.

Apenas Uma Vez surpreende justamente por esses pequenos entrelaces espirituosos, instintivos e carinhosos entre o casal, criando um relacionamento palpável, profundo e muito sensível. Afinal, apesar de estarem sempre sorrindo um para o outro, ambos possuem dramas em suas vidas e nos seus passados. E o maravilhoso desenvolvimento do roteiro, consegue explorar isso com delicadeza e amorosidade, fazendo acreditarmos nas atitudes e nos sentimentos daquelas duas pessoas.


Com o estilo "câmera-na-mão", o inteligente diretor acaba optando por uma linguagem estética de documentário, o que fortalece ainda mais o "clima real" do casal e enriquece totalmente o visual com elementos técnicos simples e diretos de câmeras, como o zoom lento ou o "tripidar da lente" acompanhando os personagens, em algumas tomadas.

Mas o trunfo do filme, além, é claro, da relação crescente e vigorosa daquele casal, é a fabulosa trilha sonora escolhida com maestria pelo diretor e, provavelmente, composta especialmente para a produção. Arrisco até em dizer que, se as músicas cantadas pela dupla de protagonistas fossem executadas de verdade por aí a fora, teríamos sem dúvida, dois novos artistas de sucesso no cenário musical! Duas canções em especial me marcaram bastante: a que é cantada no violão e piano por eles dois num dueto, dentro de uma loja de instrumentos, e uma tocada no final, com a banda toda no estúdio fonográfico. Mas não posso esquecer também daquelas que me emocionaram, como a que ele canta segundos antes dela aparecer pela primeira vez, e uma que ela canta no piano sem chegar no final.


A química do casal foi tão imensa e natural, que fica difícil não o adorarmos de imediato e torcermos para que fiquem juntos... e embutido a isso, eu fiquei numa enorme vontade de vê-los sendo mais explorados pelo ótimo script. Uma curiosidade é que em nenhum momento os nomes dos protagonistas são ditos. Nos créditos finais, ele está como "cara" e ela como "garota". Mas, talvez, a falta de nomes seja uma interessante metáfora de que quando relacionamentos são fortes e verdadeiros não se precisa de nomes para nos entregarmos de coração.

NOTA 8,5

PS: Algo me diz que a frase na língua Tcheca "Noor-ho-tebbe", que ela diz para ele em um bonito momento do filme, e que ele fica sem a tradução pois ela intencionalmente não revela, quis dizer: "Eu amo você!".

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Quinta-feira, Janeiro 08, 2009

UM CRIME AMERICANO - Impiedosamente cruel

Há muito tempo não assistia uma obra tão forte e intensa quanto Um Crime Americano. Não falo de cenas sangrentas ou sequências de morte. Mas falo daquilo que pode ser o mais perturbardor para a alma e o que faz nossos corações sangrarem diante de tanta crueldade contra uma inocente e indefesa menina. Sylvia Likens conheceu esse verdadeito horror de frente e sofreu todas as dores que a maldade humana poderia lhe causar, desde o terror psicológico às torturas físicas. E seu carrasco atendia por um nome feminino e complicado: Gertrude Baniszewski.

O filme escrito e dirigido por Tommy O'Haver, baseado em fatos reais ocorridos na década de 60 no estado de Indiana, Estados Unidos, mostra de maneira direta e sem floreios, toda a tragédia que envolveu as famílias Likens e Baniszewski... mais precisamente, a jovem Sylvia Likens e sua irmã mais nova, Jenny Likens.

Depois de serem deixadas pelos próprios pais, por algumas semanas, aos "cuidados" de uma senhora aparentemente regrada, Sylvia e Jenny começam a perceber o controle rígido e obcecado que Gertrude Baniszewski exercia sobre seus filhos. Mas é curioso percebermos o comportamento dúbio dessa mãe de seis crianças; Gertrude é capaz de frequentar a igreja assiduamente, se relacionar de maneira amistosa com o Reverendo e com a vizinhança, e parece sempre pronta para ser prestativa para quem quer que seja. No entanto, toda essa "simpatia", esconde uma dona de casa frustrada, emocionalmente descontrolada e, algumas vezes, até vulgar, chegando assediar rapidamente o pai de Sylvia e Jenny e se insinuando até mesmo para Ricky, um garoto retraído que parecia só ter 15 anos de idade. Não demora muito para Gertrude exibir todo a sua violência, colocando como "desculpa" para suas atrocidades, o senso protecionista que possuía para com seus filhos! Se no princípio, achamos que ela era rígida e autoritária com quem fosse para manter a imagem imaculada de sua família, logo a vemos se transformar num monstro cruel e sem nenhuma intensão de separar mais o que era o certo e o errado. Pode ser que o único momento de reflexão mais nítido que aquela maldosa mulher teve perante os atos absurdos que fazia, foi durante um rápido desabafo dentro do porão enquanto esfregava um pano umedecido no rosto de sua vítima... mas nesse minuto, por tudo que já havia feito com a menina Sylvia, era tarde demais para qualquer tipo de arrependimento.

O filme é implacável nas cenas de punição e castigo que Gertrude Baniszewski realizava. Nada é mostrado explicitamente, mas apenas as imagens sugestivas que uma ponta de cigarro, um ferro em brasa ou uma garrafa de coca cola pode causar, são perplexamente chocantes e é algo que nos perturba profundamente. Sylvia Likens foi massacrada, humilhada e colocada como um animal para apenas servir como bode expiatório ou uma terrível amostra do que aquela mulher insana, que se dizia dona de casa, faria com quem saísse de seu controle. E é dolorosamente triste e penoso testemunharmos pessoas de fora, como os vizinhos que ouviam os gritos mas preferiam ser omissos ou os perversos jovens que iam até o porão para destruir ainda mais Sylvia, sendo manipulados pelas ações e atitudes que aquela louca e maligna mulher causou contra um único ser humano.

Mas Um Crime Americano certamente não teria o impacto que teve se não tivesse duas atrizes poderosas interpretando as duas personagens principais. É claro que a atriz Ari Graynor, que fez Paula Baniszewski, a filha mais velha de Gertrude e talvez as outras crianças tenham colaborado para a força do filme, mas é realmente Catherine Keener (de O Virgem de 40 Anos) fazendo Getrude Baniszewski e Ellen Page (de Juno e Menina Má.Com) como Sylvia Likens, que carregam com toda a força o filme em seu mais alto teor de tensão e angústia. Mesmo que Catherine Keener faça de Gertrude uma mulher desequilibrada, cruel e completamente má, a talentosa atriz também nos passa - por mais sutil que seja! - elementos humanos na vilã, como sua constante tosse provocada pelas crises de asma que sofria e durante aquele tortuoso desabafo no porão. E Ellen Page mais uma vez brilha mostrando que é uma das melhores atrizes de sua geração, tranformando Sylvia num ser frágil, aquebrantado e sofrido, que mesmo por um leve sorriso ou por um olhar mais terno, nos faz acreditar plenamente que aquela menina tão ingênua e simples, tinha uma alma bondosa e pura que foi completa e covardemente destroçada.

E pra mim, é revoltante saber que, mesmo de maneira primária e irracional, as crianças que entraram naquele porão e os vizinhos que se omitiram em chamar a polícia, colaboraram direta e indiretamente com toda aquela perversão e, no final de tudo, também foram coniventes com todo o crime praticado naquela casa!

NOTA 9

PS: "Eu conhecia Sylvia e sabia que ela chorava, mas nunca mais a vi chorar... mas acho que é porquê ela já não tinha mais lágrimas para derramar!", essa frase dita ao final do filme pela irmã de Sylvia, Jenny Likens, define bem todo o pesadelo por qual a menina havia passado.

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